A dupla Boy e Formiga
Rolando Boldrin, com a viola, era o Boy da dupla formada com o irmão Leili, em 1948. Desde meninos se apresentavam em São Joaquim da Barra (SP).
Foto: Acervo Pessoal (DR)

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O Começo
“Vá, caboclinho... ...e muito juízo por lá.”

Às vezes de brincadeira, tiro conclusões, mas é para justificar o fato do velho Amadeu e de Dona Alzira chegarem a uma “dúzia” de filhos, justamente no “atravanco” da época braba da segunda grande guerra, quando havia até racionamento de açúcar, farinha e automóvel movido a gasogênio. Lembro da casa de quarto e cozinha de chão batido, sem fogão a gás, sem geladeira nem rádio.

Doze crianças, seis homens e seis mulheres, esparramados em “riba” de colchões de palha de milho com travesseiros de pena de galinha. E eu acabei sendo o sétimo filho, nascido em 22 de outubro de 1936, o único na família, por força do destino, “encarregado” de cantar e contar a minha terra em verso e prosa desde muito cedo.

Onze horas da manhã, as vozes dos locutores Lafayette Leandro e Airton Gouveia se faziam ouvir. -- E com vocês...a dupla de ouro...a dupla que vale ouro, a dupla que é um verdadeiro... tesourooooooo: BOY e FORRRRR...MIGA! Era o programa de auditório de uma hora de duração, com direito até a jingle do patrocinador e cachê artistico.

A fama dos dois meninos de vozes ardidas crescia tanto que já eram convidados para apresentações em palcos de cinemas de outras cidades. O Boy da dupla, na sua infantilidade varonil, fazia sua exigência determinante: -- O filme da tela tem de ser “brasileiro”, senão não canto.

O Boy era...eu.

A vinda “pras capitá” foi um pouco cedo demais, para um moleque de 16 anos.

O velho Amadeu num surpreendente gesto de apoio, tira do bolso lá dele uma nota de 100 mil réis, entrega ao menino para em seguida estender as costas da mão direita de mecânico cheirando a gasolina, insinuando um beijo de “benção”. Ainda, com forças emocionais, recomendou carinhosamente:
-Vá, caboclinho. E muito juízo por lá.

O desembarque em São Paulo, foi às 6 horas da madrugada do dia seguinte na barulhenta Estação da Luz.

A procura de um emprego qualquer de sapateiro, profissão iniciada em São Joaquim, ou de entregador de roupas de tinturaria, nas imediações do bairro da Luz, foi como tinha de ser. A pé.

E eu...bem, eu como não “sonhava” outra coisa senão ser um ATOR, continuei perseguindo este destino.