Confissão de Caboco - Zé da Luz, adp. R. Boldrin

Sinhô dotô delegado,
Digo à vossa-sinheria
Que inté onti fui casado,
Cum a muié que im vida
Se chamo Rosa Maria.
Faz dez mês que se gostêmo
Faz oito que fumo noivo
Faz sete que nóis casêmo.

Nóis casêmo, e nóis vivia
Cumo pobre é verdade
Mas a gente se sentia
Rico de felicidade.
Pras banda que nóis morava
No luga Xã da Cotia,
Morava tombem um cabra
Chamado Chico Faria.

Esse cabra, antigamente
Tinha gostado de Rosa,
Chegaro inté a sê noivo
Mas num fizéro a intrósa
Do casamento, pru mode
Munué- Uréia- de- Bode
Que era padrinho de Maria
Te desmanchado essa prosa.

Entonce o Chico Faria
Adespois que nóis casêmo
Im cunversa as vez dizia:
Qui inda me dava fim
Pra se casa cum a Maria.
Dessas coisa eu sabia,
Mas num dei importância,
Tinha toda a cunfiança
Na muié que eu tanto amava,
Ou mais mio, adorava
Cum toda a minha sustança.

Despois disso, o meu rigime
Era vive trabaiano, sem da muié
Tê ciúme. A muié, pru sua vez,
Nunca me deu cabimento, deu pensa
Que ela fizesse um dia um dia um farsejamento.
Mas, sêo dotô, tome tento,
No resto da minha estória,
que o ruim chego agora.

Se não me farta a memória,
Já faz ansim uns três mês
Qui o cabra Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quase sempre, mais das vez
Avisitava o meu rancho.
Pur ali, descunfiado,
Cumo quem qué e num qué,
Eu fui veno que o marvado
Tentava minha muié.

Ou ventação, ou ingano,
Eu fui vendo a coisa feia.
Pru derradêro eu já tava,
Cum a mosca detráis da uréia.
Os tempo foi se passando,
E o meu arreceiamento
Cada vêiz ia omentando.
Sêo doto, vá escuitano.

Onti, já de tardezinha,
Meu cumpade, o Quinca Arruda,
Me chamo, pra nóis dansá
Num samba, lá na varginha
Na casa de Mestre Duda.
Entonce, Rosa Maria,
Sempre gosto da samba,
Mas porém de tardesinha,
Me disse descunfiada,
Que prô samba ela num ia
Qui tava muito infadava
Percisava de deita.

Eu fiquei discunfiado
Cum a preposta da muié,
Despois de tuma café
Quage puro sem mistura
Cum a faca na cintura
Fui prô samba, fui samba.
Cheguei no samba, dotô.
Repare agora, o sinhô,
Quem era que tava lá,
O cabra Chico Faria
Que quando foi me avisando
Foi logo me perguntando:
- Cadê siá, dona Maria,
Num veio, não? Pra dansá?

Não sinhô, fico im casa.
Pru caboco arrespondí.
Sintí entonce uma brasa
Quêmando meu coração.
Nunca mais pude tira
As palavra desse cabra
Da minha manginação.
Perdi o gosto da festa
E num pude dansá, não.

O cabra pru sua vêz,
Não dansava, sêo dotô.
De vêz im quando me oiava
Cum oiá de traidô.
Meia noite mais ô meno
Se adispidindo do povo,
Disse: --- Adeus que eu já vô.

Quando ele se arritirô
Eu tobem me arritirei
Atrás dele, sim senhô.
Ele na frente, eu atrás,
Se o cabra andava depressa,
Eu andava muito mais.
Noite escura, quiném breu,
Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu.
Sempre andando, sempre andando,
Ele na frente eu atrás.
Já nem se escuitava mais
A vóiz fole tocano
Na casa de Mestre Duda,
A noite tava mais nega
Qui a cunciência de JUDÁ.

Sempre andando, sempre andando
Eu fui vendo sêo dotô,
Qui o marvado ia tumando
Dereção da minha casa,
Minha casa, sim senhô.
Já pertinho do terrêro,
Eu me escundí pru destras
Dum pé de trapiazêro.
Abaixadinho escundido,
Prendi a suspiração,
Abri os óio e os uvido,
Pra mio vê e uví
Quá era sua intenção.

Sêo doto, repare bem:
O cabra oiando pra trás
Do memo jeito que faz
Um ladrão pra vê argúem,
Num tendo visto ninguém
Na minha porta bateu.
De lá de dentro uma vóiz,
Bem baxinho arrespondeu.
Ele entonce, cá de fora:
--- Quem ta batendo, sou eu.

De repente abriu-se a porta.
Ah, sêo dotô, nessa hora
A isperança tava morta,
Tava morto o meu amô.
No escuro, uma vóiz falô:
---Tá aqui, sêo Chico, essa carta
Qui à tempo eu tinha escrivido
Pra manda pra vosmecê.
Pru favo, num leia agora,
Vá simbora, vá simbora,
Qui quando chegá im casa,
Tem muito tempo pra lê.

Quando as minhas oiça uviu
As palavras qui