Nos palcos
Rolando Boldrin com Irene Ravache, na peça Roda Cor de Roda, de Leilah Assumpção, 1972.
Foto: Acervo Pessoal (DR)

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Teatro
O palco dos sonhos

A paixão pelo teatro também acompanhava o garoto de São Joaquim. Ver o circo chegando, sendo montado no campinho de terra batida atrás do grupo escolar onde a gente estudava, era a emoção da esperança maior.

A “trupe” heróica de artistas do circo, nas ruas da cidade, anunciava através de um canudo de lata o “bordão”:

-- Hoje tem espetáculo?
-- Tem sim senhor!
-- E o palhaço o que é?
-- É ladrão de muié...

“Tem sim senhor” vinha no meu grito estridente de garoto fazendo coro com um punhado deles, também cheios das fantasias e emoções que só um circo poderia oferecer a um menino do interior naquele tempo.

Seguindo o bordão, vinha o anúncio do título da peça a ser apresentada naquela noite.

-- Não percam hoje no Circo Teatro Irmãos Portugal...

“O mundo não me quis”,
“E o céu uniu dois corações”,
“Miguel Strogof, o correio do Kzar”,
“O Ébrio”, peça que imortalizou Vicente Celestino, etc...etc...etc...

À noite, na ponta da arquibancada da primeira fila, com os olhos pregados nas cenas e nos atores maquiados com rouge e batom, sob luzes coloridas de efeito no cenário de pano pintado, lá estava o menino emocionado, vislumbrado, sonhando o dia em que poderia estar no lugar onde esses heróicos atores estavam. O “palco”.

1966 foi o ano de rompimento temporário com a televisão, numa arrancada corajosa, por que além de perder a estabilidade do emprego fixo, que já durava 8 anos, ficara prejudicada a projeção artística conseguida a duras penas na Emissora da “moda”, a TV Tupi de São Paulo. Mas, os teleteatros e novelas da Tupi, ou de outros canais, agora tinham ficado para outro tempo.

A estréia foi no TBC entre feras do Grupo Oficina na peça “Os inimigos”, de Máximo Gorki, escritor russo da terra do grande Eugênio Kusnet, que também estava no elenco. A direção era de Zé Celso Martinez Corrêa.

O “salto” seguinte foi para o famoso Teatro de Arena, marca registrada do grande ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, lugar onde se podia “ brincar” de ator com grandes companheiros em vários espetáculos. Agora sim. Estava do jeito que eu queria.

Peça de autores brasileiros num importante movimento da classe teatral na resistência heróica à revolução militar de 64, quando nós atores nos palcos levávamos “pancadas” na cacunda e ampolas de gás ardido nos olhos, junto a um público solidário nas idéias revolucionárias dos anos 70.